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Cultura Aeronáutica

O Sonho que Decolou

Entrevista exclusiva com o engenheiro aeronáutico, coronel, fundador da Embraer e escritor Ozires Silva, cedida ao Portal do Aviador durante a 17ª edição da EAB Air Show
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Pedro Rosas | PortaldoAviador.com

“O Sonho que Decolou, a fascinante história da Embraer” narra a trajetória de uma fantasia perseguida por um garoto que, oriundo da classe média, conseguiu montar uma equipe e transformar em realidade o segmento da construção aeronáutica no Brasil. O livro é a história viva, perene, buscando descrever fatos e passagens que conduziram a criação e o desenvolvimento dos primeiros aviões “made in Brazil”, exportados para mais de 40 países.

Como pano de fundo, a constituição da EMBRAER, a linha de produção, a escolha dos modelos, os problemas e as dificuldades para uma indústria de alcance internacional. Enfim, um relato pessoal, partindo de quem viveu todos os acontecimentos, contando fatos, identificando coincidências que parecem ter pavimentado o caminho do futuro, na concretização de um grande orgulho nacional. Acompanhe esta entrevista exclusiva ao Portal do Aviador, cedida pelo engenheiro aeronáutico, coronel, empresário e escritor, Ozires Silva. 

Em “O Sonho que Decolou”, você descreve os anseios e as dificuldades de se construir o primeiro avião no Brasil. Como tudo começou?

Comecei a pensar nisso quando frequentava o aeroporto de Bauru, minha cidade natal. E sonhava muito vendo os aviões americanos. Anos mais tarde, meu professor de química falava muito sobre a importância do Santos Dumont pra aviação no Brasil, mas, no alto dos meus 13 ou 14 anos de idade, não fazia a menor ideia de que eu me envolveria na fabricação de aeronaves. Então parti para carreira de engenheiro aeronáutico, tempos depois, quando a FAB criou o ITA, como primeira escola de engenharia aeronáutica do país.

Foi quando o sonho decolou…

Formei-me e comecei a trabalhar duro, já com a ideia de que iria projetar aviões. E foi nessa luta que chegamos à Embraer de hoje. Praticamente todas as ideais iniciais de criação da empresa foram de concepção própria. Lembro que incentivava muito meus colegas nesse sentido. Então descobri que tinha alguma habilidade para liderar as pessoas. Assim, quando criamos a Embraer, fui prontamente designado como primeiro presidente da companhia. Pouco depois, rolou pelo nosso hangar, o primeiro avião brasileiro, o Bandeirante. Olhei pra aquele aparelho e pensei: “puxa, foi um sonho que decolou!”.

O maior legado do livro é essa capacidade de acreditar?

O livro tem o objetivo de levar às pessoas uma mensagem de que uma boa ideia, perseguida com entusiasmo, esforço, persistência e, sobretudo, paixão, sempre dará resultado. Então se olharmos no mundo, encontramos inúmeras histórias como essa, de pessoas que inovaram intensamente e criaram produtos que facilitaram nossas vidas. É só olhar para seu iPhone. O sonho do Steve Jobbs também decolou.

E como estou no fim do meu mandato no planeta, porque daqui a pouco vou embora, quis deixar uma mensagem para que os jovens, lendo meu livro, possam também sonhar e contribuir. A Embraer hoje gera 20 mil empregos e fatura 7 bilhões de dólares por ano, e tem aviões voando em todos os países do mundo. Às vezes até eu me pergunto: “será mesmo verdade tudo isso?”. Outras vezes, são outros que me perguntam: “é mesmo verdade isso?”.

Então eu diria que, por trás de cada cabeça, pode existir uma ideia absolutamente transformadora, de um futuro de oportunidades para muita gente.

Pensando nos problemas estruturais que a aviação brasileira enfrenta, como impostos, burocracia, capacitação, o que está faltando para uma cultura aeronáutica menos indolente e mais democrática?

Falta muita coisa. Principalmente, pessoas que façam as coisas acontecerem. Podemos falar do Governo, podemos falar das pessoas. No caso do brasileiro, falta uma coisa muito importante. Acreditar em si mesmo. Quando o brasileiro acha que alguma coisa está faltando, ele sempre acha que não é com ele, acho que o problema é com os outros, e muito pior: acha que alguém tem que fazer as coisas por ele.

Se está faltando esforço é porque está faltando sonhar?

Claro que sim. Se você ler meu livro, vai notar que existe o sonho e a paixão acima de tudo. Pessoas acreditando que o sonho pode ser útil pra um monte de gente. O que está faltando hoje é acreditarmos que nós mesmos. Podemos fazer muita coisa sem nos acomodarmos numa posição cômoda, do tipo “não tenho nada a ver com isso, não é minha obrigação”. 

Estamos em ano de eleição, mas não vejo nenhum candidato com um sonho de realizar efetivamente alguma coisa. Se eu fosse candidato a alguma coisa, minha mensagem seria a seguinte: “vou fazer esse país ser muito mais importante do que ele é hoje”. E esse meu sonho pertence a vocês também, brasileiros. Então quando for apertar o botão da urna eletrônica, que tenha esse sonho na cabeça, no sentido de que todos podermos transformar as coisas. Dia desses, um garoto olhou pra mim e falou: “muito obrigado, você mudou minha vida”. quer prêmio maior que esse? Não existe!