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Aviadores Ilustres

Santos Dumont, O Gênio Brasileiro – Capítulo I

A vida no Brasil, as grandes invenções, os prêmios internacionais e a polêmica com os irmãos Wright
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Pedro Rosas PortaldoAviador.com
Símbolo máximo da liberdade, voar talvez seja o sonho que mais habitou o coração dos homens. Desde que Ícaro decolou, sem sucesso, pelos céus da Grécia Antiga e Leonardo Da Vinci rabiscou o primeiro esboço de um helicóptero, ainda na Idade Média, eis que surge um inventor brasileiro para romper os limites da imaginação e conquistar, definitivamente, o espaço aéreo.

Nascido em 1873, no sítio Cabangu, em Minas Gerais, próximo à cidade que hoje leva seu nome, Alberto Santos-Dumont revelava, desde criança, traços de seu gênio ousado e criativo. Com 12 anos, pilotava as locomotivas da fazenda e inventava aviõezinhos com hélices acionadas por elásticos. Seu pai, o cafeicultor franco-brasileiro Henrique Dumont (1832-1892), ao perceber o fascínio do filho, acabou direcionando seus estudos para a mecânica, a física, a química e a eletricidade.

Com 18 anos e emancipado, Alberto partiu para a França, aprofundar suas pesquisas em Mecânica e motores de combustão interna, objeto constante de suas investigações. Ao chegar em Paris, encantou-se prontamente com as máquinas de combustão que começavam a impulsionar os primeiros automóveis. Fascinado, comprou um modelo e, pouco mais tarde, já estava promovendo e disputando as primeiras corridas de automóveis em Paris.
 

O primeiro dirigível

O vento soprava forte quando, em 1897, Dumont realizou seu primeiro voo, num balão alugado, voando 100 km em duas horas. Um ano depois, subiu ao céu a bordo de sua primeira criação, o balão Brazil, ainda em formato esférico, porém mais leve que os padrões da época, utilizando seda japonesa em apenas 6 m de diâmetro. Obsecado pela dirigibilidade, pela propulsão e pela construção de um motor capaz de propelir um veículo aéreo, mesmo contra o vento, Dumont traçou uma fórmula estrutural: 

• Pouco peso;
• Muita força;
• Uso de combustível líquido (mais leve que motores a vapor ou eletricidade, e mais fácil de transportar). 

Em 18 de setembro de 1898, seu objetivo seria alcançado. Dumont construiu um motor a gasolina, de dois cilindros, e o adaptou a um triciclo, depois acoplou a um balão de forma alongada (forma de um charuto), flexível, com 25 metros de comprimento, batizando o modelo de Nº 1. Estava inventado o primeiro dirigível da história.

O Nº 1 trazia um balonete de ar para manter a pressão interna e, através de um sistema de pesos e contrapesos, mudava de direção. Em 1899, Dumont testou os dirigíveis Nº 2 e Nº 3, atingindo 20 km/h de velocidade e chegando a permanecer 23 horas no ar. Em agosto de 1900, voou com o Nº 4, botando a hélice na proa e trocando a cesta de vime por um acento no estilo do selim de bicicleta. 
 
O Prêmio Deutsch

Em julho de 1901, a genialidade de Dumont chamou a atenção do milionário Henry Deutsch de la Muerte, entusiasta e mecenas da aviação, que ofereceu um prêmio de cem mil francos a quem partisse do Campo de Saint Cloud e, sem auxílio de terra, contornasse a Torre Eiffel e regressasse ao ponto de partida em 30 minutos.

Na primeira tentativa, com o Nº 5, Dumont decolou, contornou a torre, mas uma falha no motor fez o balão chocar-se contra as árvores. Um mês depois, outro acidente com o N° 5, que perdeu o gás e colidiu contra o telhado do Hotel Trocadero, causou uma grande explosão. Dumont se salvou amarrando-se ao cesto do dirigível, ficando suspenso, dependurado no hotel, de onde foi resgatado por bombeiros.
 
Irredutível, Dumont fatalmente cruzaria a linha de chegada, em outubro de 1901, a bordo de seu Nº 6, na presença de jurados e do Aeroclube da França. Além do prêmio Deutsch, Dumont receberia uma medalha de ouro, oferecida pelo Governo brasileiro e assinada pelo presidente Campos Salles (1841-1913), acompanhada de 100 contos de réis, o equivalente a 125.000 francos. 
Mas o dinheiro da premiação foi inteiramente distribuído entre seus mecânicos, colaboradores e as classes menos abastadas de Paris, revelando outra característica de Dumont: o desprendimento. Nenhuma de suas invenções foi patenteada ou renderam ganhos financeiros. Ao contrário, foram todos disponibilizados para benefício da humanidade.

O Primeiro Hangar

Até junho de 1900, os balões eram lançados dos parques públicos de Paris. A cada voo, era necessário produzir o hidrogênio, estender o invólucro do balão, enchê-lo para voar, esvaziá-lo e dobrá-lo novamente. Incomodado com os procedimentos, Dumont projetou um grande abrigo para guardar os balões já inflados, evitando desperdício de hidrogênio e mão de obra. Nascia o primeiro hangar da história, chamado de Aeroestação de Saint Cloud, inteiro de madeira, com 30 m de comprimento, 11 m de altura e 7 m de largura na base.

Um ano depois, Alberto 1º, príncipe de Mônaco, arrebatado com a engenhosidade do brasileiro, ofereceu um hangar, na praia de La Condamine, para que realizasse algumas experiências no principado. Dumont então instalou, na frente do galpão, portas que corriam sobre rolamentos, tão suavemente que até uma criança seria capaz de abri-las, inaugurando o primeiro hangar com portas corrediças da história.
 
O termo hangar tem origem holandesa, numa modificação de “ham-gaerd” (“galpão ao lado da casa”)
Entre 1901 e 1905, Dumont continuou construindo seus dirigíveis. O Nº 7, projetado para corridas, com seu Clément de 70 cavalos, nunca decolou. Com o Nº 9, batizado de “La Baladeuse”, Dumont começou a transportar pessoas e com ele descia às ruas, para encontrar amigos e tomar café. O Nº 10, chamado de “ônibus aéreo do futuro”, teria capacidade para dez pessoas, mas também não decolou. O N º 11, idealizado como um monoplano com flutuadores, não garantia estabilidade. O Nº 12 parecia um helicóptero e o Nº 13, apelidado de “grande iate aéreo”, foi destruído por uma tempestade antes mesmo de voar.